Reservatório do Mocó: a caixa d'água de 1899 que Manaus ainda usa
Prédio neorrenascentista da Praça Chile guarda dois tanques sobre ferro inglês, segue no abastecimento da cidade e tem um mistério no nome.
Por Redação

Na Praça Chile, no bairro Nossa Senhora das Graças, zona Centro-Sul de Manaus, um prédio neorrenascentista de cerca de mil metros quadrados trabalha sem parar desde 1899. O Reservatório do Mocó não é museu: segue em pleno funcionamento como um dos maiores e mais importantes reservatórios da cidade, segundo a concessionária Águas de Manaus, atendendo bairros das zonas Sul e Centro-Sul. Não abre à visitação, e boa parte de quem passa por ali não imagina o que há dentro.
Uma resposta à falta d’água
A obra nasceu de uma urgência do fim do século 19. Manaus crescia com a borracha e a distribuição de água não acompanhava o ritmo: segundo o historiador Otoni Mesquita, mulheres carregavam potes com água retirada dos igarapés da região. A proposta de construção é de 1880; as obras começaram em 1894, no governo de Eduardo Ribeiro, e levaram cinco anos, com ferro inglês e cimento Portland importados. Na época, a população da cidade era de cerca de 53 mil habitantes.
Inaugurado em 1899, o reservatório respondeu pelo abastecimento de toda a capital até a década de 1960. Hoje, segundo o Iphan, abastece parte de Manaus e é tombado como patrimônio federal.
O que a fachada esconde
Da rua, veem-se alvenaria e arcos. Por dentro, a estrutura é de ferro importado da Inglaterra e sustenta dois tanques metálicos instalados na parte superior da edificação, descreve o Iphan. Em 2016, o então gerente de distribuição da concessionária explicou que essa estrutura metálica exige manutenção geral a cada quatro ou cinco anos: o reservatório é esvaziado e as chapas, tratadas.
O complexo, porém, é maior do que o prédio. A Portaria 33/2021 do Iphan, que definiu o entorno protegido, inclui no setor de ambiência do monumento, além do reservatório tombado, “duas caixas d’água” e a infraestrutura hidráulica histórica. O mesmo documento trata o vizinho Cemitério São João Batista como setor próprio e limita novas construções a 9 metros de altura no entorno imediato e a 16 metros no entorno próximo.
Por que “Mocó”?
O nome é o ponto mais curioso do conjunto — e não há resposta fechada. Para Otoni Mesquita, existem duas hipóteses: a presença de roedores na área onde o reservatório foi erguido e a influência da migração nordestina em Manaus. “Nunca ouvi falar do bicho Mocó, acredito que seja uma coisa do Nordeste, devia ter cotia ou capivara no bairro e pode ser que os nordestinos tenham chamado esses animais de Mocó”, disse o historiador.
Patrimônio em uso — e sob cobrança
Por continuar operando, o Mocó aparece nas notícias de dois jeitos: como personagem da história da cidade e como problema de infraestrutura. Em janeiro de 2025, uma manutenção emergencial no reservatório afetou o abastecimento do conjunto Manauense, no mesmo bairro, segundo informou a concessionária.
No campo do patrimônio, a Prefeitura de Manaus anunciou em março de 2025 uma agenda de fiscalização integrada com o Iphan que incluía o reservatório do Mocó, com vistorias previstas de abril a setembro. Em agosto, o Ministério da Cultura confirmou autuação do Iphan contra o Mocó, administrado pela Águas de Manaus: a vistoria apontou “patologias e riscos” na estrutura e exigiu medidas de recuperação.
Como ver (de fora)
O reservatório fica na Rua Belém, 414, na Praça Chile, ao lado do Cemitério São João Batista. A visitação interna não é permitida porque o prédio é uma unidade operacional. A portaria do Iphan indica as ruas São Luís, Maceió e Belém como pontos prioritários para ver o monumento, e proíbe placas e faixas que atrapalhem sua visibilidade.
Quantas pessoas dependem dele ainda é uma conta que muda conforme a fonte: reportagens citam cerca de 250 mil moradores, enquanto a Águas de Manaus falava em cerca de 600 mil em 2019. A data do tombamento também diverge: o texto do Iphan e a imprensa citam 13 de março de 1995, e a ficha do instituto reproduzida em portais de patrimônio registra inscrição nos livros do Tombo Histórico e de Belas Artes em abril de 1985.
Para quem gosta da história da cidade, o Mocó é vizinho de outros capítulos da Belle Époque: o Mercado Municipal Adolpho Lisboa e a Galeria dos Ingleses vêm do mesmo período de importação de ferro e cimento.


